Fora um trabalho limpo. Um único disparo, na base do crânio,
com morte imediata e sem aparato.
Gabriel agachou-se junto à forma minguada que jazia de bruços e com dedos hábeis arrastou um pedaço de gaze pela mancha escura e peganhenta que alastrava pelo soalho até
ao tapete estendido meio metro adiante.
O odor metálico era inconfundível.
A janela aberta, a geografia circundante e a posição da vítima contavam-lhe parte da história: o disparo viera de longe, com trajectória perfeita e apanhara o alvo desprevenido. Quem quer que tivesse premido o gatilho sabia quando e como alcançar a visibilidade necessária, o que, dadas as circunstâncias, significava que conhecia bem os hábitos da vítima e que, muito provavelmente, aquela não tinha sido a sua primeira vez atrás de uma arma.
Restava uma questão importante, porém: porquê assassinar uma velhota de 80 anos, sem bens nem apelidos assinaláveis, praticamente confinada a um lar e cujas únicas devoções conhecidas eram a missa de domingo e a novela das sete?
Gabriel reergue-se e olhou em volta. Uma colcha florida, uma bíblia sobre a mesa, três peças de roupa largadas nas costas de uma cadeira e um andarilho perto do armário. Nada que pudesse guardar segredos ou suscitar surpresa.
Ou assim parecia.
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