sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Idioma

O Professor Buchmann foi trazido de Viena a meio da noite, com duas mudas de roupa na mala e poucas explicações quanto à verdadeira razão daquela viagem-relâmpago.

Reconhecido poliglota e estudioso afincado de línguas mortas e dialectos locais, só o mais atento observador, porém, reconheceria o académico por debaixo das suas roupagens soltas e tez manchada pelo sol. Pois Johannes Buchmann era precisamente o tipo de aventureiro que escalaria até aos confins da terra para registar o nascimento de um novo étimo ou a última palavra proferida de uma língua moribunda, um verdadeiro todo-o-terreno dos percursos linguísticos, que não poucas vezes arriscara a vida em nome do seu amor à arte da fala.

E ainda assim, pouco ou nada nos seus anos de experiências insólitas e aventuras invulgares o poderia ter preparado para a cena que encontrou naquela moradia modesta em Vendas Velhas, no sul mais sul de Portugal. No canto da sala, duas crianças loiras como a luz, gémeas nos traços e nos modos, falavam entre si numa qualquer mistura de línguas que nunca antes ouvira. Soava como todas as línguas sem, na verdade, se confundir com nenhuma. Alemão? Um pouco de chinês? Curdo, aqui e ali? Impossível dizer. Um idioma idiossincrático e absolutamente impenetrável, que as duas crianças pareciam dominar em absoluto, com exclusão de todos os demais.

Incapazes desde a nascença de aprender qualquer língua, comunicando sobretudo por meio de gestos que a família fora decifrando à força da adivinhação paciente, aos três anos fora-lhes diagnosticado um atraso cognitivo que os médicos relutantemente se admitiam incapazes de qualificar ou esclarecer. Pareciam, em tudo, de uma destreza normal, olhos vivos e atentos, rápidos na reacção, curiosos, activos, sorridentes. Apenas incapazes de falar. 

E assim foi durante anos, até que duas semanas antes daquela manhã, exactamente três dias depois de celebrarem o seu oitavo aniversário, os gémeos se haviam lançado num diálogo trauteado, uma melodia que cativava os ouvidos e confundia o cérebro, e que fluía deles como se nunca tivesse sido de outra forma.

A cena estava disposta como se num palco. Buchmann, mal saído da soleira da porta, de mala aos pés e olhar fixo no canto da sala, a rabiscar fonemas num caderninho magro que lhe cabia na palma da mão, os gémeos entretidos lá ao fundo com berlindes que faziam rolar ruidosamente pelo chão, a mãe, sentada na beira do sofá, como quem não ousa denunciar a sua presença, o pai, de pé ao lado de Buchmann, puxando frequentemente do maço de tabaco e voltando a arrumá-lo intocado no bolso da camisa, e os três professores engravatados do CEEFL, Consórcio Europeu para o Estudo dos Fenómenos Linguísticos, que mesmo àquela hora da manhã mantinham a pose de quem houvesse deixado os corredores da faculdade três segundos antes.

Quebrando a inércia que se instalara na divisão, o Professor Buchmann decidiu-se finalmente a avaçar no espaço, tomando a mão da mãe dos gémeos num passou-bem um pouco frouxo, enquanto no seu português limpo, tocado apenas por uma réstia de sibilância germânica, lançava:

- Por favor desculpe esta minha intromissão. Quero que saibam que lhes agradeço muitíssimo a oportunidade de estar aqui e que procurarei em tudo quanto puder respeitar a privacidade da vossa família. Mas é realmente algo... algo... wie sagt man dass..

- Uma aberração - tartamudeou o pai dos gémeos, atrás dele.

- Senhor Correia, penso que está equivocado - retorquiu Buchmann com genuína veemência - É a descoberta do século, atrevo-me a dizer, um passo de gigante para a evolução da linguística! Sabe quantas vezes temos a oportunidade de testemunhar algo como nascimento de uma língua natural? Bom, adianto-me, porque para ser rigoroso ainda temos de fazer alguns testes-- com a vossa permissão, claro!... Mas se os meus ouvidos não me traem, creio que estamos perante um verdadeiro idioma, uma língua de pleno direito! Ainda que não a possamos compreender, parece ter um ritmo próprio, uma estrutura intrínseca, padrões sonoros que se repetem uma e outra vez, se prestarmos atenção.

- Como disse - tornou o outro - uma aberração. Ou pelo menos é o que vão fazer deles, não é?

- Senhor Correia, posso garatir-lhe que o CEEFL...

- Sim, já sei... não tem quaisquer fins comerciais, religiosos ou políticos, pretendendo apenas contribuir para o avanço científico na área da linguística... - Fitou-o com ironia - Não se preocupe, os seus colegas deixaram-me a brochura logo no primeiro dia em que cá vieram.

Buchmann recuou um pouco, perante a hostilidade inesperada. Hesitou sobre a melhor forma de continuar aquela conversa que parecia ser como o início de um pequeno incêndio. Por fim, decidiu ser franco.

- Compreendo o que diz. Acho que também não gostaria de ter quatro desconhecidos plantados na minha casa, rodando de volta da minha família, a tirar notas e a falar de coisas como testes e novas línguas naturais. Mas Senhor Correia, se sente isso, porquê aceitar esta segunda visita? E porquê contactar o CEEFL, em primeiro lugar?

O homem esfregou a bochecha direita com a palma da mão, olhou para o fundo da sala, onde os gémeos brincavam ainda, aparentemente alheados, e com um suspiro respondeu:
 
- Porque são meus filhos, apenas isso. São meus filhos e não consigo compreendê-los quando me olham nos olhos e tentam falar comigo. Não quero que passem a vida toda como ilhas.

(to be continued)

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