quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Chimpanzé

No Jardim Zoológico de uma cidade qualquer:

- Imaginas o que seria, num mundo ao contrário, estarmos nós naquelas grandes gaiolas de ferro e os chimpanzés do lado de fora, mirando-nos com curiosidade, lendo nas placas os nomes científicos da espécie humana e inquirindo sobre os hábitos dos pobres animais que éramos? Será que nos iam importunar com ramos de árvores enquanto catávamos os piolhos às crias? Ou será que escarneciam do nosso corpo quase sem pêlo e da nossa organização social? Imaginas o que os chimpanzés estarão a sentir ao olhar para nós, do lado de dentro do muro artificial que se interpõe?
- Um mundo dominado por chimpanzés? Havia de ser bonito, sim senhor. Um mundo em que, em vez de cunhares moeda, certificavas bananas como meio de troca. E se calhar até nos atiravam amendoins, como fazemos com os elefantes. Tu e as tuas ideias... Meu amigo, estás é a precisar de conhecer umas miúdas novas para refrescares as ideias com outros assuntos. 
- Eu não preciso de conhecer miúdas novas. Eu já tenho uma miúda. O que eu preciso é de escrever um ensaio sobre a condição humana que resulte de um diálogo constante entre nós e a população dos chimpanzés. Uma espécie de teatro filosófico, em que os interlocutores sejam chimpanzés e em que contracenemos sem preconceitos sobre os antepassados ou o por vir, sem a primazia da ideia de hierarquia evolutiva em que o homem surge como o parâmetro de todos os animais. Acho que passaria muito mais horas aqui, quieto, a observá-los. São fantasticamente parecidos connosco, não achas?
- És mesmo uma pessoa excêntrica, Eduardo. Isso agrada-me, mas... às vezes preocupa-me. 

(...)

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