terça-feira, 13 de novembro de 2012

Alternativa

Alguma vez te detiveste à beira do salto? Te ergueste no limiar do precipício para sentir respirar o vazio, aquele frio gélido que emana das profundezas do ar?

Eu estou aqui. Os meus pés empurram-me ininterruptamente contra a terra e não sei se é a gravidade ou a inércia a força que me amarra ao lugar presente. Sei que considero tudo numa fracção de segundo e que ao mesmo tempo não me apego a nada. A minha mente é um mar de estilhaços. Estou despedaçada dentro de mim.

Penso nas variáveis possíveis e em como talvez a vida se resuma a um conjunto de aleatoriedades sequenciais. Há mil e uma chances de isto acabar mal e outras mil e uma de acabar bem, mas talvez cada uma delas seja uma probabilidade de percentagem indeterminada, o proverbial X. Eu nunca fui excelente a matemática, mas ocorre-me o dilema: de um momento para o outro faço-me pó e o que resta? 

Não, não pode ser apenas isso.

Eu estou no limiar do vazio a olhar o gigante nos olhos e sinto a vida crepitar nas suas entranhas. Há a força que me empurra para dentro e me fixa ao lugar, sim, mas por baixo dessa há outra, a que devassa as minhas fronteiras e me atira para fora delas. Sou uma só mas estou entalada entre o coração e a pele e algo em mim quer escapar pelas frestas dos olhos e derramar-se sobre o mundo.

Eu estou aqui, verdadeiramente, e estou viva. No limiar de todos os significados possíveis, mas viva. A paralisia é apenas a ilusão momentânea de quem vê a superfície inerte sem sentir o interior que se move. 

Os saltos acontecem muito antes de se verem. No momento em que tudo muda, antes de mudar. Uma fracção de segundo, um talvez fugaz, uma alternativa. O momento exacto em que descobrimos que algures nas entranhas do vazio existe uma liberdade possível e que a liberdade, essa sim, tem sentido.

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