Amélia tomou a iniciativa. Tinha chegado o momento.
- Amigas, temos de decidir se convidamos ou não a Ofélia. O silêncio colectivo não nos resolve o problema e temos de ser honestas… - Amélia fez uma breve pausa e retomou: - Estamos todas com um ar culpadíssimo e, mais tarde ou mais cedo, ela vai perceber que planeamos a viagem nas costas dela.
O silêncio foi breve - foi um silêncio agudo, como um tinido metálico, que entrou na consciência pesada das quatro traidoras. Foi Ana quem tomou a iniciativa.
- Eu concordo. A Ofélia tem feito os possíveis para nos compensar pela menor sorte que...
A frase atingiu Conceição como uma flecha impensada. Os ventos da conversa mudaram de súbito.
- Menor sorte? Menor sorte é ter um acidente de automóvel e não ter três. Menor sorte é estragar a máquina do café e não todo o equipamento electrónico que esteja por perto. Menor sorte é um eufemismo, Ana. Será que vocês não compreendem? O azar tem uma atracção pérfida pela Ofélia e nós somos apanhadas pela onda gigante como se estivéssemos em pleno oceano numa pequena canoa. Eu não concordo. Desculpem-me, eu não posso concordar.
O facto é que Conceição era quem mais tinha sido prejudicada pelos azares de Ofélia nas ruas da Índia. Podia ter morrido ali, de intoxicação alimentar, no meio daquela gente famélica, das instalações insalubres, do calor peganhento… Que pavor imenso à sensação de vómito permanente, de convulsão ácida, de cheiro amargo, de suor. Não, definitivamente, Conceição ainda não tinha recuperado do sucedido há onze meses, daquele azar, permanente, rodeando Ofélia como as moscas rodeavam aquelas crianças mal-cheirosas.
Leonor tomou a palavra, erguendo a compasso o corpo, como que para acentuar a autoridade que os anos lhe conferiram.
- Eu durmo no quarto com a Ofélia, se necessário. Voltando-se para Conceição, diz-lhe: - A verdade é que tu também não és a típica aventureira e, ainda assim, arriscámos levar-te connosco para o Quénia e para Índia e passámos as viagens inteiras a descobrir o teu horror pelo calor, pelas pessoas, pelas ruas, pelos mosquitos, pela comida, por tudo e mais alguma coisa. E tratar a Ofélia como um íman de todos os azares é muito, muito injusto.
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