sábado, 17 de novembro de 2012

Boca

Susana decidiu ser imaginativa com o negócio das comidas caseiras e deu à luz ao “Bocas - Pronto-a-comer & Parlatório”, um snack bar onde era possível comer e falar, falar muito, sobre todo e qualquer tema. O lema, pintado à entrada do estabelecimento, seduzia o cliente assim: “Mande bocas. Mande muitas. Aqui, todos os cantos são deliciosos. Vai ver que a sua boca não se arrepende”. Era um trocadilho com um enorme fundo de verdade: em cada canto do estabelecimento havia uma vitrine com delícias diversas, desde os suculentos salgados de massa tenra ao incontornável bolo de chocolate negro, e cada cada estava estrategicamente decorado com um mural construído a partir frases polémicas de grande vultos da história, onde Susana não se esqueceu de incluir Platão, nem Madonna. Pensado para ser eclético, quanto ao serviço, ao cliente e à ideia, o estabelecimento causou estranheza aos idosos moradores da Rua Direita, esse caminho sinuoso e inclinado perdido do centro da cidade, esquecido pelos mais jovens. A verdade é que nenhuma boca vizinha ousou insurgir-se para além de tímidos murmúrios, colhidos aqui e acolá: fisgados os apetites pela qualidade da merenda, também os ânimos se rendiam a risos espontâneos com a animadas conversas que tinham lugar na sala dos fundos. E a sala dos fundos era digna de se ver e ouvir, baptizada de Parlatório e muito similar a um confessionário, ora dos pecados praticados, ora das ideias pensadas.

(a continuar? muito provavelmente)

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