quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Gira-discos

Empacotou tudo menos o gira-discos e o vinil da Billie Holiday. A voz ondulante espalhou-se suavemente pelo espaço, mama may have... papa may have... but God bless the child that's got his own... that's got his own... Difícil explicar a subtil tristeza que invadia cada nota da canção, como todas a que Billie cantava, as doridas e as alegres, tristeza de uma vida que trepava sorrateiramente para dentro das suas harmonias.

Sentou-se no soalho despido e, encostada à parede, bebeu o que restava do tinto de um trago. 

- À tua. Onde quer que estejas.
Sentia-se já como uma estranha naquele lugar. Como se todo aquele tempo nada mais tivesse sido que uma ocupante temporária, a colonizar clandestinamente o espaço, a invadir território proibido, à espera do momento em que inevitavelmente teria de recolher os vestígios da sua existência e entregar a chave. 

E contudo, mal podia ver claro por entre o emaranhado de memórias que lhe dançava atrás dos olhos. Amizades feitas e desfeitas, ali. Angústias. Possibilidades. Uma vida nova... há uma primeira vez para tudo, Cristina... sim, eu sei... gosto da Billie porque me magoa quando canta... tu magoas-me... preferia ter-te deixado ir... lembras-te quando... sim... but God bless the child that's got his own... that's got his own...  

Sabia os diálogos de cor como a letra da canção e por vezes tornava-se impossível distinguir entre a voz dentro da sua cabeça e a voz dentro do gira-discos, ambas a ondularem na sua tristeza infinita.

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