segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Olfacto

Entro numa sala. No seu promontório de vigia, o meu nariz alerta o resto do corpo para a memória que se avizinha. Eu nunca estive aqui, mas talvez tenha estado numa outra sala que cheirasse como esta. Talvez houvesse no ar o subtil aroma de cabedal velho, livros a amarelecer e flores frescas dispostas numa jarra. Não consigo lembrar-me de caras nem de nomes, mas através desse primeiro nevoeiro que se instala quando entro numa sala o meu olfacto insurge-se como um estalo na face.
 
E assim, nesta tarde de Novembro, com o céu a despedaçar-se lá fora, as duas mãozinhas roliças estendidas para mim são um pouco menos anónimas, porque com elas vem o cheiro a açúcar queimado e baunilha, mastigado com um pó de talco quase imperceptível.
 
O cheiro dá-me vontade de tirar os sapatos, enrolar-me numa bola e chorar. Em vez disso, aceito a chávena estendida e dou um gole contido no chá de príncipe.

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