sábado, 9 de fevereiro de 2013

Piano

No meio da rua, a despropósito, estava um piano. Daniela quase esbarrou contra ele, de tão alheada que ia a olhar para o empedrado. Era um piano de cauda, um C. Bechstein, visivelmente usado, mas ainda majestoso com os seus reflexos negros e caprichosos.

Daniela olhou em volta. Nem carro de mudanças, nem dono à vista, apenas ruas desertas e portas fechadas às sete da manhã de um domingo. O tempo estava farrusco e havia um ventinho agreste que empurrava o corpo para dentro das roupas.

A medo, levantou a tampa, revelando ao céu cinzento aquele enorme sorriso desdentado. Acariciou o dó maior e o dó sustenido. Fez uma escala. Olhou em redor e ainda assim ninguém.

Há cinco anos que não tocava num piano. Cinco anos desde que vendera o seu, para não passar fome. Literalmente fora assim. No momento chorara, mas seguira em frente. Talvez seja a necessidade de sobreviver que tudo converte em contingências temporárias.

Mas agora alguma coisa lhe estremecia, recuperando o desgosto das suas profundezas insondáveis, e quando deu por si estava a tocar um nocturno no vazio da manhã. Houve uma janela que se abriu. E depois outra. Persianas a correr para cima ao som crescente do grande C. Bechstein a vibrar. Quando terminou, alguém bateu palmas.

Esperou quatro horas inquietas, rezando para que não chovesse, rezando para que ninguém reclamasse a propriedade, guardando fielmente o seu achado. Não apareceu ninguém. Ao início da tarde, três amigos com uma carrinha viram ter com ela e carregaram para dentro o gigante preto, conduzindo-o à sua nova morada, na Rua Angelina Vidal, onde um pequeno quarto vazio passara os últimos anos à espera.

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