sábado, 9 de fevereiro de 2013

Maratona


Maratona de café e cigarros esborrachados no fundo do copo. O Simão-nunca-fiz-nenhum-trabalho-que-não-fosse-numa-directa apagou no sofá pouco depois das duas da manhã e continuámos eu e a Rita a passar a pente fino a biografia do Henry James. Algures entre o fim da noite e o despontar do dia encolhemos os ombros perante a inevitabilidade de uma positiva à rasca e alguma humilhação. Fomos para a cozinha comer pão com manteiga e rirmos que nem uns perdidos a acordar o Óscar pacificamente enrolado na sua almofada. Quanto mais sono tínhamos menos dormir parecia um plano viável. De repente estava ela sentada ao meu colo a meter-me a mão por dentro da t-shirt e eu apanhado de surpresa enxotei-a como um bicho que me tivesse caído nas calças. O Simão, caraças, a dormir a sono solto na sala! Gosta de ti há que tempos, não vês, só faz é seguir-te pelos corredores. O Simão é querido, mas é um menino. É meu amigo. E teu também! Exacto, amigo. Não costumo beijar os meus amigos na boca. A Rita tinha um piercing recente no lábio e enquanto discutíamos fixava-me nele quase sem dar conta. Ela sabia-o, de certeza que o tinha posto ali para isso mesmo. Como se a maquilhagem expressiva e o cabelo flamejante não fossem marca suficiente, ela ia compondo a sua persona exterior em camadas cada vez mais complexas e gritantes, um neon fluorescente. Acabei por sugerir que fossemos dormir, mas ela disse que preferia ir para casa e saiu pouco depois, batendo ligeiramente com a porta. O Simão acordou, coçou a perna, perguntou pela Rita, balbuciou umas desculpas ensonadas pelo adormecimento precoce e retirou para o quarto meio trôpego. Eu agarrei no pacote de pringles caído no chão, saquei uma, deixei a superfície colar-se na língua e mastiguei-a lentamente. Algum génio fizera milhões à conta de desidratar batatas e eu era apenas mais um elo na infinita cadeia desses milhões. Algures na paragem do 735 uma miúda de cabelo vermelho rogava-me pragas.

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