As jeans pendiam de ganchos simetricamente alinhados como peças de carne. Lavagens mais escuras à esquerda, lavagens mais claras à direita, brancos e pretos em cada uma das pontas. Levou-lhe duas semanas a saber dobrá-las e dispô-las assim, dentro do tempo cornometrado.
A primeira coisa que aprendeu na loja foi:
Tudo o que é simples tem a sua ordem, para que pareça simples.A segunda coisa que aprendeu na loja foi que a maior parte das pessoas exige às jeans o mesmo tipo de aprumado desleixo que o cinema ensina a apreciar. Ser bonito não chega, é preciso ter swag. Ser bonito e ter swag não chega, é preciso não querer tê-los, mas tê-los na mesma. In spite of oneself.
Não desejamos nos outros o que têm, mas o terem-no sem esforço, o esforço que nós mesmos somos forçados a empregar. É isso que os divide, a nós e a eles, em galáxias distintas. Por isso os desejamos.
Poderiamos ser tentados a dizer que a loja de jeans a tinha tornado cínica, mas na verdade apenas a tinha convertido numa observadora mais astuta da natureza humana. Agora ela compreendia a importância de adivinhar de imediato o corte de um cliente, de lhe ler nos olhos o equilíbrio preciso entre audácia e conforto, de distinguir os limites ultrapassáveis das linhas vermelhas. Ela sabia que à medida que o esforço se instalava e os diferentes modelos se iam acumulando no vestiário, o desejo murchava como uma flor sufocada.
Vender jeans é vender essa perfeição involuntária, a frame congelada no ecrã a que voltamos sem cessar, fazendo rewind, carregando no pause, relembrando aquela vez em que tudo foi fácil, exacto e belo.
Depois é preciso trabalhar com o arranjo. Para a maior parte das pessoas o arranjo é uma concessão necessária às regras do real, mas é importante velar para tal concessão seja breve, de modo a não quebrar a ilusão. Assim, logo no segundo dia de trabalho, foi ensinada a nunca mencionar um arranjo pelo nome e sobretudo nunca no seguimento de uma conjunção coordenativa adversativa. Os arranjos eram, para todos os efeitos, parte integrante de cada peça. Uma consequência lógica da sua perfeita adesão a qualquer forma ou feitio. Os arranjos eram uma evidência intrínseca ao próprio acto de se usar umas jeans. Como tal, os arranjos incorporavam-se na explicação de como um par de jeans assenta perfeitamente num dado corpo. Os arranjos simplesmente vão acontecendo, sem esforço.
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