segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Molécula

À noite, cada um assumia o controlo do seu objecto favorito da sala de estar, mastigando em silêncio o prazer sóbrio de estar cada um em paz no seu espaço. Ela lia um livro sobre uma loja de artefactos asiáticos, algo que encontrara no caixote de papel dos livros mais baratos do alfarrabista. Era um livro brasileiro que, provavelmente, mais ninguém para além dela própria estaria a ler. Ele assistia a um programa sobre a recriação de carros antigos em máquinas estéticas dos dias presentes. Era um substituto possível para os documentários sobre a vida animal, de que era religioso admirador. Cada um no seu mundo, por vezes conversavam, para quebrar a rotina, para fazer a ponte com o outro lado da humanidade, para se sentirem mais normais, e faziam-no absolutamente inconscientes de que assassinavam a proximidade de forma irrecuperável.

- Sabes o que ouvi hoje o quarteto das torradas a dizer?
- Podias repetir? Estava distraída, não percebi.
- O quarteto das torradas. Sabes qual era a conversa do dia hoje? O desemprego da Ofélia. As madames estão sempre a conversar sobre a vida dos outros, sempre a tecer tapetes para puxar. Devias estar lá para ouvir.
- Quem é a Ofélia?
- A garota do restaurante, aquele onde fomos duas ou três vezes, à beira da estrada, no caminho para Setúbal. Sabes quem é. Uma vez trazia vestida uma saia vermelha, rodada, pelo joelho, muito folclórica, lembras-te?
- Muito me espanta que te lembres da saia.

Silêncio. Livro reeguido. Comando recuperado.

- Eu hoje ouvi falar sobre uma tema muito interessante. Nem fazia ideia que existia.
- Então, o que foi?
- Sobre geometria molecular.
- Sobre o quê?
- Sobre geometria molecular. É a área do saber que estuda as relações espaciais entre os átomos que compõem as moléculas. Dá para medir tudo, descobrir as formas de tudo. Impressionante.
- Tiveste uma epifania intelectual, foi? Com quem estiveste a conversar? Isso é conversa que não conheço...
- Um amigo da Mila. Almoçámos juntas hoje.
- E o que é que isso das moléculas serem quadrados e círculos e afins?
- Elas não são quadrados, círculos ou coisa parecida. São ligações de átomos que se agrupam de diversas formas. Estas formas podem ser estudadas. Como estudas a forma de transformar um carro caduco num automóvel moderno de autor. É isto, basicamente.
- Hummm... tudo bem, compreendi. E quem é o amigo da Mila?
- Não me recordo do nome.

Mário não retorquiu. As tiradas espontâneas de Ana sobre ciência eram fogo-fátuo num horizonte mais vasto de dois universos em afastamento. Que importavam o raio das moléculas? Falando daquele modo, Ana até parecia uma estudante do sexto ano na primeira aula de química e Mário sabia que tudo o que a rejuvenescia assim era por natureza perigoso. Mas de química percebia um pouco e não foi por acaso que ouviu falar de Ofélia hoje. Não, de certeza que não foi por acaso.

Mudou de canal. Mudou tantas vezes quantos os canais de que dispunha sob sua tutela.

Ana queria dizer-lhe. Ricardo, o nome dele é Ricardo. Foi um homem medianamente maçador durante a maior parte do tempo que teve cinco minutos brilhantes de conversa sobre ciência, apenas isso e uma ideia que ficou para a posteridade: a geometria das moléculas. Medir os caminhos que unem os átomos e fazê-lo de forma matemática. Que sabia Mário sobre este espaço em que só ideias interessam? Ana conhecia o tom de Mário de lides antigas, eram as defesas habituais, as marcações de território, era a diferente geografia dos universos em afastamento.

- Sim, recordo-me da Ofélia. A do rebuçado no pires de café.

Ana ergueu-se da cadeira de baloiço e seguiu rumo ao quarto. Apagou a luz, em sinal de protesto. Mário mirou-a com a fala sustida de quem quer justificar um acto de terceiros e perde a coragem por se sentir envolvido da falta que não é sua. Hoje os quartos seriam diferentes.

Os mistérios da química não são insondáveis. Até têm uma geometria! 
Mas é do conhecimento comum que as ligações químicas ora se estabelecem, ora se partem. 
Quebrada a química, sobram os diálogos atónitos de quem premune que a grande roda da vida está em movimento. Que o cosmos está vivo.

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