Dois homens, um com cerca de sessenta anos e o outro com cerca de vinte e cinco, conversavam na mesa do canto, junto ao gradeamento do terraço, no lado virado para o mar. Bebiam chá. "Chá das Índias" ouvi umas senhoras comentar. Sobre o que conversavam?
- Diga-me, lê-me a ideia e diz-me se tem o potencial para singrar?
- Digo-lhe que me reformei das lides. Desliguei para sempre o Leitor.
- Os dons não têm interruptores. O José é lendário na leitura de ideias. Se permanecer em silêncio, daqui a uns anos dirão que foi um mito urbano. Mas sei que não é, é o que importa. Todos sabemos. Sei que o José pode antecipar o sucesso do livro lendo a ideia e a sua ajuda é imprescindível, este livro é muito importante para mim.
- Deixe-me que lhe explique um detalhe. Agora dirijo um pequeno ginásio, dedicado à prática de artes marciais, herança que me deixou a minha primeira mulher, a oriental, e que chegou às minhas mãos por razões obscuras do destino. Fui casado, sabe?
A conversa derivava. Percebia-se à distância que as palavras tomavam caminhos imprevistos.
O velho acendeu finalmente o cigarro contra o qual lutara. As senhoras comiam torradas e falavam sobre póquer, enquanto disputavam sub-repticiamente a atenção de dois cavalheiros, sentados mais além, ainda distantes dos protagonistas.
- A verdade é que este negócio foi imprevisto e foi também a melhor coisa que me aconteceu, deu-me anos de vida e uma vida muito, muito diferente. Teria de explicar-lhe muitos factos para poder justificar por que lhe nego auxílio neste momento. E, compreenda, em rigor, não tenho de justificar a minha reforma, mas gosto sempre de oferecer àqueles que me procuram uma resposta mais completa. Para que não pensem que simplesmente os abandonei.
- Sei o que fez por muitas pessoas e como os livros floresceram nas mãos dos escritores da cidade. Foi o José quem reconheceu a primavera das ideias a emergir à sua volta e que os aconselhou. Apenas pretendo...
Um murro na mesa, como um suspiro de facas. Inesperado. Os olhos do terraço voltaram-se todos para a mesa do canto. Ouve-se o murmurinho dos demais clientes.
- Saber de antemão que o seu intento terá sucesso? Já experimentou apresentar o livro na editora, em conseguir a sua publicação? Ou faz parte do grupo de diletantes impertinentes que, ainda antes de esgotar todas as hipóteses, prefere apostar na futurologia? Porque, sabe, não há nada como insistir, como tentar, como melhorar e voltar a insistir. Isso é potencial!
- Que se passa consigo? Endoideceu?
Pausa. Silêncio.
- Perdoe-me. Sente-se. Desculpe-me, se o ofendi.
- Se não se está a sentir bem... Vim à procura de respostas e não de problemas.
- Ouça-me. A última pessoa que veio tentar convencer-me a regressar à leitura de ideias com o mesmo registo poético disse-me: "Acha mesmo que vou perder dois anos da minha vida a escrever um livro para este morrer nas redes metálicas dos caixotes do lixo das editoras? Eu quero certezas". Quer saber o que lhe respondi?
- O quê?
- Que as certezas matam a vida. Que ele era demasiado jovem para matar a vida.
- Mas eu sou outra pessoa. O livro está aqui. Tome, leia-o. Eu acho que ele tem potencial.
Vejo um envelope grande, cor creme, comum. O jovem põe o envelope volumoso em cima da mesa. O velho recolhe-o e, ao abri-lo, aproxima o nariz do papel, junto à cola não usada.
O jovem abandonou a mesa. Consta que o chá ficou todo por beber na sua chávena. Consta que, depois daquele dia, os dois homens nunca mais se encontraram.
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