terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pão

De certos dias diz o povo: comer o pão que o diabo amassou. E Álvaro provara-lhe o acre sabor até às lágrimas. Apanhado pelo Zé Carlos nas traseiras do 12-B, ele e a Vera Paiva aos beijos com o desleixo dos arroubos juvenis, mal teve tempo de arrepiar caminho. O outro, cego de raiva e de dor, sai do seu canto como um bicho acossado para fora da toca e prega-lhe com o punho nos dentes. 

O sangue espirrou do lábio aberto com facilidade, manchando-lhe a camisa e o orgulho. O Zé Carlos urrou de dor assim que os seus dedos finos conectaram com o sólido maxilar. Mas não contente saltou de novo, ainda antes que ele, por entre dentes cerrados e lábio aberto, terminasse o insulto:

- Filho da...

Zás! Braços e pernas colaram-se-lhe ao corpo e daí até ao asfalto foram dois segundos irreflectidos. Rebolaram como gatos que perdessem de repente toda a agilidade. E teriam feito estragos maiores se os gritos da Vera não tivessem atraído para aquele recanto do pátio meio liceu e dois contínuos que prontamente os puxaram para cantos opostos, de onde continuaram a insultar-se e a desafiar-se com esticões que só a pura adrenalina arranca ao corpo depois de uma valente tareia.

Daquele dia saíram dois resultados imediatos: dois dias de suspensão e uma ida ao hospital, onde ficaram os dois lado a lado, levando pontos e roendo-se de fúria e orgulho ferido, possivelmente castigo maior que o currículo académico manchado.

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