Terça-feira de
Outono. A chuva martela os corpos polvilhados sobre a terra. Projecta-se sobre
as superfícies, demora-se nas irregularidades do piso, abre chapéus, enverga
impermeáveis e envolve no seu abraço a massa indistinta de tecido, arame e
gente.
Esfrego as mãos com
gestos largos, sentindo o algodão roçar entre as minhas palmas.
- Temos sorte,
amiguinhos! Nada como uma escapadela de comboio à chuva!
Um coro de
exclamações excitadas, um yeeeeaaaaaahhhh!
multiplicado em várias vozes, e depois o habitual tropel de criançada a ajeitar
pés e mãos, puxando cobertas, acomodando fios, fazendo ranger o metal.
Mesmo sem os fitar,
pressinto os seus olhos crescerem na luz parda. Cravados nas minhas costas
de xadrez azul e branco, no dedo da minha luva erguida, no vermelho
exuberantemente redondo do meu nariz. Aqui, são estas as minhas únicas provas
de credibilidade, a minha senha secreta de entrada para os seus universos
particulares.
- Micas, põe-me esse motor a
rugir! Depressa!
- Pronto, chefe!
- Lipe, as malas dos
passageiros?
- A postos!
- Rodas, quem são as minhas rodas
hoje?
- Euuuuuuuuuuuu! - a resposta
arrasta consigo uma multidão de braços que desenham círculos no ar.
- Joaninha, o aviso final.
- Tu-u-uuuuuu! Pouca-terra,
pouca-terra!
E aquele pouca-terra lança-nos
por montes e vales sem destino, correndo sob a chuva, cantando à desgarrada,
descortinando aventuras em paredes nuas, cumprimentando magos e reis em cabides
de pé e suportes para sacos de soro, pintando a paisagem a lápis de cor ou cera
ou o mais que houver à mão.
Eu agito-me na minha cadeira
montada a cavalo, viro-me para eles e lanço na minha melhor voz esganiçada:
- Senhoras e senhores,
meninos e meninas, o circo-comboio está a caminho da vossa cidade! Não percam
este magnífico espectáculo, que é o mais mega-hiper-brutalmente fixe que alguma
vez viram nas vossas vidas!
E o comboio atravessa tudo,
atravessa sempre, rasga o véu das incertezas com as suas rodas feitas de gente
e o seu motor feito de sonhos, um só corpo que somos nós. Eles, os meus fiéis
escudeiros, com pernas de gesso, cabeças calvas e cicatrizes no corpo, e eu, o
palhaço com um homem dentro, que por vezes carrega sombras no interior das
suas risadas. Um bando de irmãos a deslizarem juntos pelos carris à chuva,
quase quase a descolar, quase quase a roçar as nuvens.
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