quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Comboio

Terça-feira de Outono. A chuva martela os corpos polvilhados sobre a terra. Projecta-se sobre as superfícies, demora-se nas irregularidades do piso, abre chapéus, enverga impermeáveis e envolve no seu abraço a massa indistinta de tecido, arame e gente.

Esfrego as mãos com gestos largos, sentindo o algodão roçar entre as minhas palmas.

- Temos sorte, amiguinhos! Nada como uma escapadela de comboio à chuva!

Um coro de exclamações excitadas, um yeeeeaaaaaahhhh! multiplicado em várias vozes, e depois o habitual tropel de criançada a ajeitar pés e mãos, puxando cobertas, acomodando fios, fazendo ranger o metal.

Mesmo sem os fitar, pressinto os seus olhos crescerem na luz parda. Cravados nas minhas costas de xadrez azul e branco, no dedo da minha luva erguida, no vermelho exuberantemente redondo do meu nariz. Aqui, são estas as minhas únicas provas de credibilidade, a minha senha secreta de entrada para os seus universos particulares.

- Micas, põe-me esse motor a rugir! Depressa!

- Pronto, chefe!

- Lipe, as malas dos passageiros?

- A postos!

- Rodas, quem são as minhas rodas hoje?

- Euuuuuuuuuuuu! - a resposta arrasta consigo uma multidão de braços que desenham círculos no ar.

-  Joaninha, o aviso final.

- Tu-u-uuuuuu! Pouca-terra, pouca-terra!

E aquele pouca-terra lança-nos por montes e vales sem destino, correndo sob a chuva, cantando à desgarrada, descortinando aventuras em paredes nuas, cumprimentando magos e reis em cabides de pé e suportes para sacos de soro, pintando a paisagem a lápis de cor ou cera ou o mais que houver à mão. 

Eu agito-me na minha cadeira montada a cavalo, viro-me para eles e lanço na minha melhor voz esganiçada:

-  Senhoras e senhores, meninos e meninas, o circo-comboio está a caminho da vossa cidade! Não percam este magnífico espectáculo, que é o mais mega-hiper-brutalmente fixe que alguma vez viram nas vossas vidas!

E o comboio atravessa tudo, atravessa sempre, rasga o véu das incertezas com as suas rodas feitas de gente e o seu motor feito de sonhos, um só corpo que somos nós. Eles, os meus fiéis escudeiros, com pernas de gesso, cabeças calvas e cicatrizes no corpo, e eu, o palhaço com um homem dentro, que por vezes carrega sombras no interior das suas risadas. Um bando de irmãos a deslizarem juntos pelos carris à chuva, quase quase a descolar, quase quase a roçar as nuvens.  

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